O que os cavalos podem nos ensinar sobre nós mesmos?

Recentemente vivi uma experiência que ainda ecoa profundamente dentro de mim.

Era noite. 

Eu estava dirigindo por um espaço onde havia vários cavalos quando um deles atravessou lentamente a frente do carro. Ele simplesmente permaneceu ali.

Esperei, pedi licença, desci do carro e conversamos em silêncio por alguns instantes até que, no tempo dele, seguiu seu caminho. 

Naquele momento imaginei que tudo terminava ali, mas não.

Na manhã seguinte, aquele mesmo cavalo caminhou diretamente em minha direção, pensei que ele quisesse que eu abrisse o portão do espaço, mas não era isso.

Ele apenas queria permanecer perto. Outras pessoas tentavam acariciá-lo, chamá-lo, aproximar-se dele, com delicadeza, balançava a cabeça em negativa, se afastava e voltava para perto de mim.

Uma amiga sorriu e disse:

– É com você. Isso é amor. 

Rimos.

Mas, dentro de mim, eu sentia que havia algo muito maior acontecendo. 

Era como se, desde a noite anterior, ele estivesse tentando me dizer algo que eu ainda não conseguia compreender. 

Então olhei para ele e disse baixinho: “Eu ainda não estou entendendo a mensagem. Mas estou recebendo o seu amor.”

Naquele instante deixei de procurar respostas, abaixei a cabeça, encostei meu rosto no dele e ficamos ali, sem palavras, sem expectativas, sem necessidade de compreender, apenas presentes.

Quando levantei novamente a cabeça e olhei profundamente para seus olhos, aconteceu algo que jamais esquecerei: eu me vi, refletida em sua córnea. Minha imagem aparecia pequena, curvada pela superfície do seu olhar, exatamente como acontece quando estamos diante de um cavalo.

Não era uma ilusão, a córnea do cavalo funciona como um espelho convexo, quando nos aproximamos, nossa imagem realmente aparece refletida em seus olhos, é um fenômeno físico, mas, naquele momento, tornou-se também um fenômeno da alma.

Fiquei ali observando aquele reflexo e ele continuouna mesma posição, me olhando, ou melhor, permitindo que eu me olhasse.

Foi algo muito profundo, até difícil de explicar. Era como enxergar a si mesmo a partir do olhar do outro.

Não um olhar que julga, não um olhar que exige, não um olhar que compara, mas um olhar que simplesmente acolhe.

Naquele instante, percebi que não era apenas eu olhando para um cavalo, era um cavalo me permitindo olhar para mim mesma.

Nós passamos grande parte da vida tentando descobrir quem somos, buscamos respostas em livros, em cursos, na opinião das pessoas, nas experiências da vida e não que isso seja ruim, faz parte do processo, mas muitas vezes, acabamos acreditando mais no olhar dos outros, do que naquilo que existe dentro de nós.

Um exemplo que, inclusive ouço de muitos dos meus pacientes e já vivienciei, é que a forma que amamos não é suficiente, ou “correta”, que deveria ser assim ou assado. Naquele momento senti que, na autenticidade de um cavalo, que não finge, não inventa, não disfarça e não tenta agradar, minha forma de amar encontrava um reflexo.

Aquele encontro, tocou em um lugar profundo, na minha alma.

Diante daquele cavalo, aconteceu algo que nenhuma explicação racional poderia produzir.

Eu não precisei provar quem eu era, não precisei convencer ninguém, não precisei demonstrar minha capacidade de amar, eu simplesmente fui vista, sem julgamento, sem exigências, sem expectativas, apenas com presença, apenas com amor.

E talvez tenha sido exatamente isso que me emocionou tanto.

Porque compreendi e comprovei mais uma vez que existe uma diferença enorme entre ser observado e ser verdadeiramente visto, com a mesma gentileza que deveríamos nos tratar diariamente.

Talvez os cavalos não estejam aqui para nos dizer quem somos, talvez eles façam algo muito mais precioso, criam um espaço onde finalmente podemos nos encontrar.

Eles não nos devolvem respostas, devolvem um reflexo.

E, às vezes, esse reflexo revela partes de nós que estavam escondidas sob camadas de medo, dor, expectativas e antigos julgamentos.

Naquele dia compreendi que o maior presente não foi ver minha imagem refletida em sua córnea, mas sim perceber que, enquanto ele me via exatamente como eu era, eu também começava a me enxergar com ainda mais verdade.

Talvez essa seja uma das maiores lições que eles possam nos oferecer.

É possível que seja justamente isso, que eles possam nos ensinar sobre nós mesmos.

Que antes de tentarmos mudar quem somos, precisamos experimentar o que é sermos vistos com presença.

Porque, quando isso acontece, algo dentro de nós começa, silenciosamente, a se reorganizar.

Hoje não guardo apenas uma fotografia. Guardo a lembrança de um encontro que me fez recordar uma verdade simples: o amor não precisa ser explicado. Ele apenas permanece, silencioso e presente, até que tenhamos coragem de nos reconhecer em seu olhar.